Tinha algo de errado com seu corpo

uns movimentos descoordenados

transmissores desobedientes

por alguma descarga elétrica

ou colisão séria

que contaminou-o feito vírus

devagar pra nem perceber

paralisando-o, desprevenido

invalidando suas articulações

impregnando sua circulação

rompendo o ligamento

irrecuperável

e se a neuroprótese não possibilitar

ou se com essa ligação artificial

o coração não funcionar

vai romper uma grande veia

 

07/12/2006

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Eu carregava a vida num copo d’água

insípida, inodora, matando a sede aos goles

viciado em falta de ar

queimava ou tacava fogo

não era medo de voar, era medo de cair

eu agitava os braços e as pernas para não afundar

ficava atrás para não aparecer, envergonhado

nisso eu expandi pra dentro.

perdi os meus poderes

desisti do meu disfarce

me falta o suficiente para me alterar

por mais tempo, maior distância.

não quero estar acordado quando a gente adormecer

preciso perceber um pouco menos

descansar mais

precisar menos

acertar o passo

com as pessoas que me envolvem como ventre.

ninguém dá volta ao mundo com algumas batidas

mas eu ainda dou volta em mim

deslocando na transição, sem completar

congelando com o coração na boca.

 

enquanto você me troca

por um mundo que eu não conheço

eu continuo me apaixonando

e experimentando uma maneira

de entrar em alguém

sem sair de mim.

 

São Paulo – 30/11/2007

Foi porque eu deixei tudo fechado

porque quebrei com força

doer mais no peito pode ser impressão minha

posso escolher algumas músicas

esperar a porta abrir

ou posso sair

tem um mundo inteiro aqui dentro

pra eu levar pra fora

não sei ficar igual

fecho os olhos

pra esmagar tudo com as pálpebras

vou mudar o som, aumentar o volume

escurecer pra clarear

e fazer barulho

correr até cansar

amar até não aguentar mais

rir até morrer.

 

São Paulo, 04/12/2006

embora do tempo

se me deixo derreter pra esticá-lo em algumas horas

no banco de trás ao alcance das mãos

aventurando-me a voltar pra casa

com esse zumbido no ouvido

da serra de uma alta busca

desço essa escada, tropeço na sarjeta

sigo dentro por fora

tenho me espetado entre os galhos

se faço disso um sonho

feito um se esvanecerá.

 

São Paulo , 31/01/2012

eu saí do lugar

em que me dobra.

se eu não crescer passo pelo menos pelo buraco.

alcanço mesmo sem receber ou devolver

só não encostei ainda a mão no fundo.

resignado, como que reprovado pelo universo

não me é permitido escolha nesse momento

se eu perceber mais, me entrego instrumento

a mãe desconecta todas as tomadas

o rato escolhido para o experimento

meu amor vem devagar como tudo mais que fica

me preenchendo vez a conta gotas, vez a doses cavalares

overdose underdose

dosado irregular buscando o nível onde as ondas se acalmam

pra afundar é preciso uma superfície

a corrente mais profunda é vinda de amor

deixando brotar, crescer e encobrir de densa mata

todos os caminhos abertos a facões

e avançar por entre elas por nova

irremediavelmente certa direção.

 

São Paulo, 5/11/2011

queria conseguir desenhar no horizonte

quantos edifícios foram erguidos, planejados e demolidos aqui dentro

gigantes baixos cobertos de hera

com quanto sistema de segurança cada

e onde se abria uma copa entre eles

por tanto tempo nessa cidade sem fundo

quantos desses eu levantei sozinho

tive que espremer os olhos pra te achar nessa zona

pelo brilho forte

como a terra me dizendo pra não chorar.

 

São Paulo, 5/11/2011

agarrado à pia como se estivesse sendo fodido

com sua cabeça deitada à força sobre a tábua de bater carne

punha-se entre ela e o martelo

levando pancadas de qualquer um

pois só fez questão de recrutar

seus algozes vagabundos

que empunhavam a arma e lhe socavam

quando as marteladas começaram a acertar em cheio

prazeirosas

como quando a solidão fica proveitosa.

no desespero qualquer tentativa é estéril.

então saboreava os impactos

vislumbrava o sangue espirrando

percebia como lhe desferiam os golpes

enquanto o óleo fervia.

e, se já se desgastavam os cansados de martelar

quando não existisse nem um osso inteiro

seria fácil convencê-los

das sensações de uma dimensão

onde qualquer posicionamento

é um assassinato.

 

23/11/2006