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Arquivo mensal: fevereiro 2012

Tinha algo de errado com seu corpo

uns movimentos descoordenados

transmissores desobedientes

por alguma descarga elétrica

ou colisão séria

que contaminou-o feito vírus

devagar pra nem perceber

paralisando-o, desprevenido

invalidando suas articulações

impregnando sua circulação

rompendo o ligamento

irrecuperável

e se a neuroprótese não possibilitar

ou se com essa ligação artificial

o coração não funcionar

vai romper uma grande veia

 

07/12/2006

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Eu carregava a vida num copo d’água

insípida, inodora, matando a sede aos goles

viciado em falta de ar

queimava ou tacava fogo

não era medo de voar, era medo de cair

eu agitava os braços e as pernas para não afundar

ficava atrás para não aparecer, envergonhado

nisso eu expandi pra dentro.

perdi os meus poderes

desisti do meu disfarce

me falta o suficiente para me alterar

por mais tempo, maior distância.

não quero estar acordado quando a gente adormecer

preciso perceber um pouco menos

descansar mais

precisar menos

acertar o passo

com as pessoas que me envolvem como ventre.

ninguém dá volta ao mundo com algumas batidas

mas eu ainda dou volta em mim

deslocando na transição, sem completar

congelando com o coração na boca.

 

enquanto você me troca

por um mundo que eu não conheço

eu continuo me apaixonando

e experimentando uma maneira

de entrar em alguém

sem sair de mim.

 

São Paulo – 30/11/2007

Foi porque eu deixei tudo fechado

porque quebrei com força

doer mais no peito pode ser impressão minha

posso escolher algumas músicas

esperar a porta abrir

ou posso sair

tem um mundo inteiro aqui dentro

pra eu levar pra fora

não sei ficar igual

fecho os olhos

pra esmagar tudo com as pálpebras

vou mudar o som, aumentar o volume

escurecer pra clarear

e fazer barulho

correr até cansar

amar até não aguentar mais

rir até morrer.

 

São Paulo, 04/12/2006