arquivo

Arquivo mensal: janeiro 2012

embora do tempo

se me deixo derreter pra esticá-lo em algumas horas

no banco de trás ao alcance das mãos

aventurando-me a voltar pra casa

com esse zumbido no ouvido

da serra de uma alta busca

desço essa escada, tropeço na sarjeta

sigo dentro por fora

tenho me espetado entre os galhos

se faço disso um sonho

feito um se esvanecerá.

 

São Paulo , 31/01/2012

Anúncios

eu saí do lugar

em que me dobra.

se eu não crescer passo pelo menos pelo buraco.

alcanço mesmo sem receber ou devolver

só não encostei ainda a mão no fundo.

resignado, como que reprovado pelo universo

não me é permitido escolha nesse momento

se eu perceber mais, me entrego instrumento

a mãe desconecta todas as tomadas

o rato escolhido para o experimento

meu amor vem devagar como tudo mais que fica

me preenchendo vez a conta gotas, vez a doses cavalares

overdose underdose

dosado irregular buscando o nível onde as ondas se acalmam

pra afundar é preciso uma superfície

a corrente mais profunda é vinda de amor

deixando brotar, crescer e encobrir de densa mata

todos os caminhos abertos a facões

e avançar por entre elas por nova

irremediavelmente certa direção.

 

São Paulo, 5/11/2011

queria conseguir desenhar no horizonte

quantos edifícios foram erguidos, planejados e demolidos aqui dentro

gigantes baixos cobertos de hera

com quanto sistema de segurança cada

e onde se abria uma copa entre eles

por tanto tempo nessa cidade sem fundo

quantos desses eu levantei sozinho

tive que espremer os olhos pra te achar nessa zona

pelo brilho forte

como a terra me dizendo pra não chorar.

 

São Paulo, 5/11/2011

agarrado à pia como se estivesse sendo fodido

com sua cabeça deitada à força sobre a tábua de bater carne

punha-se entre ela e o martelo

levando pancadas de qualquer um

pois só fez questão de recrutar

seus algozes vagabundos

que empunhavam a arma e lhe socavam

quando as marteladas começaram a acertar em cheio

prazeirosas

como quando a solidão fica proveitosa.

no desespero qualquer tentativa é estéril.

então saboreava os impactos

vislumbrava o sangue espirrando

percebia como lhe desferiam os golpes

enquanto o óleo fervia.

e, se já se desgastavam os cansados de martelar

quando não existisse nem um osso inteiro

seria fácil convencê-los

das sensações de uma dimensão

onde qualquer posicionamento

é um assassinato.

 

23/11/2006

A mesa próxima da janela da cozinha, recortada pela luz, guarda lugar para quatro pessoas que ainda estão bastante ocupadas para aparecer no final da tarde. O sol não secou as roupas que tinha que secar. Deixava por último as janelas mais altas e os cantos mais distantes para queimar sozinho, escondido. Como um coração. Pra gente escrever no escuro. E quanto mais longe de fora, mais lugares vagos à mesa, despreparada. O tempo trancado é indolente, quer acabar mais cedo. Pra sumir com as sombras. Suspende o sofá, as torneiras, e toda comida estragando, mantendo tudo em um estado alterado, inerte e permanente, ainda que pareçam no mesmo lugar. Esperam. Um silêncio desconcertante em um lar desmontado. Jogaria a vida para fora não fosse pela faísca debaixo do tapete. Sem poder viajar, a casa alucina.

 

17/09/2007

Minha impulsividade assassina, própria dos nervos de um desastrado inveterado, me deixando de olho inchado, nariz quebrado e me embaçando a vista com sangue, enquanto meu coração arrebenta com o dele em mil pedaços.

 

24/03/2006

Meu olhar, pra fora, corta o mundo ao meio.

Mesmo que resignado, um tanto velho

Corre, vai selvagem

Faz curvas sem piscar

Avança, engolindo campos inteiros.

Pra todo lado é horizonte

Toda reta é circular;

O caminho de volta sabe quanto tempo a gente se confunde

Quanto cresce irregular

O quanto minha raiz é fraca

E o quanto a luz do sol espreme meu olhar.

Vôo rápido pra bater o vento

Pra esquentar o peito

Mas percebo quando paro

Pra retomar o fôlego

Que todo amor do mundo se mantém intocável.

O que fica comigo implode

À velocidade

Do meu olhar pra dentro.

Sou sempre tudo o que me sobra.

Sou a história do homem, ao contrário.

Como quando disparo, cada tiro certeiro

É só uma bala a menos no tambor.

E sem acreditar, guardo a última com amor

Na direção desse meu vasto olhar,

Pra dentro.

 

26/04/2007